segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Hoje é Dia Mundial da Alfabetização

8 de Setembro, foi o dia escolhido, há 37 anos, pela Organização das Nações Unidas (ONU), para lembrar ao mundo a importância da alfabetização. Segundo as previsões, em Portugal existe, ainda, um milhão de pessoas que não sabe ler nem escrever. Durante séculos o ensino serviu para discriminar uns grupos humanos perante outros, mulheres perante homens, pescadores e camponeses face a citadinos, operários face a patrões. Nas últimas décadas, algumas políticas educativas têm sido orientadas no sentido de contrariar esta tendência, de procurar promover uma maior universalidade democrática da educação. Aqui e ali, temos observado boas práticas de educação que têm consistido em procurar acabar com manipulações discriminatórias, já que cada pessoa é o que demonstra que sabe ser com a sua sabedoria, o seu conhecimento, experiência de vida, desenvolvimento pessoal e não o que o seu berço, esse berço biológico, racial, familiar, cultural, nacional, social, o parece predestinar para ser, segundo a hierarquia de oportunidades estabelecidas por outros. A pessoa analfabeta não o é voluntariamente, não é culpada da sua ignorância, não se fez analfabeta, mas foi feito como tal pela sociedade face às suas condições de existência. Estas pessoas, são jovens, são mulheres e homens, são cidadãos e cidadãs úteis à sociedade, não são pessoas marginais, nem casos de anomalia social, mas um produto normal da sociedade em que vivem. O estado de ignorância relativa no qual estas pessoas se encontram constitui um índice social que revela as condições exteriores das suas existências e os efeitos dessas circunstâncias sobre a própria pessoa. Não são indivíduos mal dotados, preguiçosos, nem rebeldes face à sociedade, são pessoas pensantes, portadores/as de ideias, dotados/as de capacidade intelectual que se revela espontaneamente nas conversas informas, na sua literatura oral.
Em muitas comunidades, sejam piscatórias ou do meio rural, a pessoa analfabeta é um elemento activo, não apenas por ser um/a trabalhador/a mas pelo conjunto de acções que exerce num círculo de existência, e pela influência que exerce na comunidade. Em comunidades onde exista um significativo índice de analfabetismo há sempre pessoas que sobressaem, que dão forma expressa ao pensamento comum e, nalguns casos tornam-se líderes apesar de analfabetos. A pessoa analfabeta, na sua essência não é aquele que não sabe ler, mas sim aquele que pelas suas condições concretas de vida, não necessita ler. Este tipo de definição deriva do facto de considerar o analfabetismo não como um acidente ou uma doença, mas como algo original dadas as condições de vida e o tipo de trabalho. Porque se necessitasse de saber ler para sobreviver ou saberia ou então não existiria porque não sobreviveria. O necessitar ao qual se refere a leitura e a escrita é de carácter social. A leitura e a escrita são primordialmente dois dos recursos a que a pessoa recorre para a execução de um trabalho que não pode ser feito sem esse conhecimento. Podemos então dizer que é o trabalho que alfabetiza ou analfabetiza a pessoa, segundo exija dela conhecimento das letras, ou seja de tal espécie que a dispense de as conhecer.
Compete ao sistema educativo, formal e não formal, criar condições que dê oportunidade a todas as pessoas de construir maior conhecimento, de desenvolverem uma maior consciência crítica, de si e do mundo, de poderem elevar o padrão cultural. Compete aos Educadores contribuir para o empowerment educativo e social dessas pessoas, no sentido de as tornar mais capacitadas para intervir socialmente. A erradicação do analfabetismo é um esforço que tem de ser desenvolvido pelo obstáculo que representa à realização pessoal de grupos de pessoas jovens e adultas, bem como ao desejado funcionamento de uma democracia moderna.
(Joca)

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